Quem adentra aquela residência, se depara de imediato com a foto do casamento dos donos da casa. A imagem denuncia a alegria daqueles dois, então recém-casados. Mas o tempo também se mostra implacável. O marido já não tem mais aquele penteado certinho, ajeitado com gel para a ocasião. Na verdade, hoje os fios sãos parcos e raros. A esposa, por sua vez, já não tem a mesma elegância de outrora. Acabou engordando um pouco com o passar dos anos.
Todavia, já não temos mais tempo para ficar admirando a foto e se prendendo ao passado. Está na hora de nosso casal dar sua tradicional caminhada.
A chegada até a rua e, posteriormente, até a praça, é complicada. Os dois já não têm a mobilidade de outros tempos. Precisam andar devagar, passo-a-passo. O marido precisa também do auxílio da bengala. Mas nada disso tira a motivação do casal para mais um dia juntos.
Ao chegar à praça, exaustos, procuram um lugar para descansar. Uma moça cede, gentilmente, seu lugar no banco. O casal reluta à primeira oferta, mas acaba cedendo. Sorriem para a jovem como forma de agradecimento.
Sentados e mais aliviados, procuram agora esticar as pernas. Sentem então as primeiras dores da caminhada: nos joelhos, nos pés, nos quadris... Aos poucos, contudo, tentam esquecer a dor e começam a prestar atenção ao redor: o sol batendo, as crianças brincando nos balanços e o vendedor de algodão-doce. Junto a isso tudo, surgem também algumas lembranças. Como a do dia em que se conheceram, das viagens com os amigos, da surpresa da gravidez da esposa, da alegria do primeiro neto...
De repente, algo inusitado acontece: os dois acabam se dando as mãos, sem combinar nada com o outro. Algo espontâneo.
E assim permanecem as mãos, entrelaçadas, por toda aquela manhã ensolarada de setembro.


