Na sala de aula, ele não consegue se concentrar. Não tira os olhos dela. Da lição, pouco aprende. Sua atenção não está voltada para o quadro-negro, e sim, para uma das carteiras, a alguns metros dali.
A redação passada pela professora toma outro caminho. Vira um poema, repleto de coraçõezinhos. Logo que termina, fica envergonhado. Esconde o papel, como se tivesse feito algo de errado.
Na hora do recreio, fica sentado em um banco, lanchando. Seus olhos percorrem todo o pátio, procurando-a. Como gostaria de ter coragem e conversar... Mas ela está com suas amigas, "melhor não atrapalhá-la".
Volta mais cedo para a sala, só para ter o gosto de vê-la entrando e passando por perto dele. Mas justo na hora em que ela se aproxima, um amigo o chama. Desvia a atenção e fala com o colega. "Nada não. Esquece. Já achei o que precisava". E ela passou...
Continua não prestando atenção à aula. Traça mil planos para conseguir falar com ela. Desiste da maioria. Se ela ao menos soubesse quem ele era...
Na porta da escola, fica esperando seus amigos saírem para voltarem juntos no ônibus escolar. De repente, ela sai também.
A menina volta com a mãe para a casa, que costuma buscá-la depois do trabalho. A mãe menciona o nome do garoto, desejando-lhe uma boa noite. E então a menina dá uma olhada para trás, para ver com quem estava falando.
"Ela olhou para mim! Ela olhou para mim! E agora, o que faço? Será que ela realmente olhou em minha direção ou foi coincidência?"
No dia seguinte, acorda ainda sonolento e atrasado. Não dormiu direito. Ficou a noite toda pensando nela.
Chega à sala para mais um dia de aula. Dirige-se ao seu lugar de sempre. No entanto, de longe, estranha algo sobre sua cadeira. Mais perto, percebe que trata-se de um chocolate.
"Quem será que deixou?"
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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Baile de máscaras
Lembro-me de quando você nasceu. Ainda que eu fosse bem jovem e morasse em um vilarejo distante onde as notícias quase não chegavam, essa não passou despercebida. Logo as vizinhas mais falastronas contavam sobre o nascimento da filha do Rei. Finalmente, Vossa Majestade tinha uma herdeira do sexo feminino.
Seu rosto eu só conhecia por meio de pinturas de velhos artesãos que passavam de vez em quando em nossa chácara para repousar um pouco e prosseguir a viagem.
Desde o dia em que vi sua imagem retratada, algo despertou em mim. Eu era um menino e começava a ter minhas primeiras paixões. Você foi uma delas.
Mas nunca tive a honra de conhecer você, até aquela presente data da qual jamais esquecerei.
Eu fora tratar de uns negócios para meu pai, longe do nosso vilarejo, quando soube da festa que seria realizada no dia seguinte, no palácio do Rei. Era uma grande celebração por mais uma de suas primaveras, foi o que me disseram. Toda nobreza estava convidada.
Quando soube da festa, abandonei logo meus planos. Adiei os compromissos para poder ficar mais um dia na cidade. Como não era da região, não tinha onde pernoitar. Acabei encontrando um conhecido de meu pai e me hospedei em um de seus pequenos cômodos.
Também não tinha o traje adequado para o baile. Estava apenas com a roupa do corpo, que apesar de ser de algodão, não era o suficiente. Mais uma vez fui salvo por conhecidos de meu pai. Um senhor me emprestou um antigo terno de seu filho mais novo, que havia ido morar no exterior. Não era exatamente do meu tamanho, mas estava elegante.
Eu não era um dos convidados da festa. Provavelmente, Vossa Majestade sequer sabia da minha existência. Era apenas um camponês a mais. Porém, bem arrumado e contando com um pouco de sorte, consegui me passar por outra pessoa e adentrei os recintos do palácio.
Era tudo muito luxuoso: decoração, vestidos, mobílias. Bebidas eram servidas à vontade, como eu jamais vira.
Estava deslumbrado e um pouco nervoso, em meio a tanta gente importante. Tomei um pouco de vinho para tentar relaxar. Enquanto apreciava a bebida, meus olhos percorriam cada detalhe daquele lugar, tão novo e estranho para mim.
Como não conhecia os outros convidados e nem tive a ousadia de me juntar a algum grupo e começar a conversar, sentei-me um um canto, sozinho, a admirar o palácio.
O palácio estava cheio. Entre uma música e outra, eu tentava distinguir a princesa, a verdadeira razão da minha presença. Avistei-a de longe, dançando com o que parecia ser o seu pai.
Um dos criados anunciou a atração que estava por vir: o baile de máscaras. Como não queria ir embora sem ao menos dançar um pouco, acabei me levantando e me juntando à multidão.
Entre um convidado e outro, acabei avistando, mais uma vez, aquele rosto familiar, agora já não tão distante. Sabe-se lá como, destino talvez, você também me viu. Nossos olhares se cruzaram por breves instantes e fomos incentivados por um estranho, já meio bêbado, a dançar. Nem acreditei que tocava suas mãos, encostava em seus cabelos...
Foi uma única dança. O bastante para eu me apaixonar ainda mais. Você perguntou meu nome, talvez surpresa com a presença de um desconhecido na festa. Eu não respondi. Não tive a coragem de tirar minha máscara. No fundo, eu era apenas um simples camponês e você, a princesa e grande herdeira de Vossa Majestade.
Seu rosto eu só conhecia por meio de pinturas de velhos artesãos que passavam de vez em quando em nossa chácara para repousar um pouco e prosseguir a viagem.
Desde o dia em que vi sua imagem retratada, algo despertou em mim. Eu era um menino e começava a ter minhas primeiras paixões. Você foi uma delas.
Não sei se fui atraído pela representação do seu olhar, tão misterioso, ou pelos seus cabelos, que pareciam tão sedosos nas pinturas.
Mas nunca tive a honra de conhecer você, até aquela presente data da qual jamais esquecerei.
Eu fora tratar de uns negócios para meu pai, longe do nosso vilarejo, quando soube da festa que seria realizada no dia seguinte, no palácio do Rei. Era uma grande celebração por mais uma de suas primaveras, foi o que me disseram. Toda nobreza estava convidada.
Quando soube da festa, abandonei logo meus planos. Adiei os compromissos para poder ficar mais um dia na cidade. Como não era da região, não tinha onde pernoitar. Acabei encontrando um conhecido de meu pai e me hospedei em um de seus pequenos cômodos.
Também não tinha o traje adequado para o baile. Estava apenas com a roupa do corpo, que apesar de ser de algodão, não era o suficiente. Mais uma vez fui salvo por conhecidos de meu pai. Um senhor me emprestou um antigo terno de seu filho mais novo, que havia ido morar no exterior. Não era exatamente do meu tamanho, mas estava elegante.
Eu não era um dos convidados da festa. Provavelmente, Vossa Majestade sequer sabia da minha existência. Era apenas um camponês a mais. Porém, bem arrumado e contando com um pouco de sorte, consegui me passar por outra pessoa e adentrei os recintos do palácio.
Era tudo muito luxuoso: decoração, vestidos, mobílias. Bebidas eram servidas à vontade, como eu jamais vira.
Estava deslumbrado e um pouco nervoso, em meio a tanta gente importante. Tomei um pouco de vinho para tentar relaxar. Enquanto apreciava a bebida, meus olhos percorriam cada detalhe daquele lugar, tão novo e estranho para mim.
Como não conhecia os outros convidados e nem tive a ousadia de me juntar a algum grupo e começar a conversar, sentei-me um um canto, sozinho, a admirar o palácio.
O palácio estava cheio. Entre uma música e outra, eu tentava distinguir a princesa, a verdadeira razão da minha presença. Avistei-a de longe, dançando com o que parecia ser o seu pai.
Um dos criados anunciou a atração que estava por vir: o baile de máscaras. Como não queria ir embora sem ao menos dançar um pouco, acabei me levantando e me juntando à multidão.
Entre um convidado e outro, acabei avistando, mais uma vez, aquele rosto familiar, agora já não tão distante. Sabe-se lá como, destino talvez, você também me viu. Nossos olhares se cruzaram por breves instantes e fomos incentivados por um estranho, já meio bêbado, a dançar. Nem acreditei que tocava suas mãos, encostava em seus cabelos...
Foi uma única dança. O bastante para eu me apaixonar ainda mais. Você perguntou meu nome, talvez surpresa com a presença de um desconhecido na festa. Eu não respondi. Não tive a coragem de tirar minha máscara. No fundo, eu era apenas um simples camponês e você, a princesa e grande herdeira de Vossa Majestade.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Possibilidades
É possível voar?
Há vida fora do planeta Terra?
Mas não me refiro a essa perguntas tão complexas da ciência que já foram, inclusive, respondidas ao longo dos anos. Minha dúvida é mais particular, quase uma angústia existencial.
Será que devo ir em frente? Acreditar em mim? E se eu for rejeitado? E se rirem da minha cara? Não, não posso pensar assim. Esse tipo de pensamento só me deixa ainda mais ansioso e pessimista.
Minha família sempre falou para eu acreditar mais em mim, ser mais confiante. Mas o problema é agir. Ainda mais depois de tantas decepções, tantas lágrimas derramadas... A ferida ainda dói.
Seria tão mais simples se alguém estivesse disposto a me ouvir, tentar entender o que estou passando. No entanto, onde estão meus conhecidos nessas horas?
Certamente, seria bem mais fácil se a vida fosse um mero jogo de tabuleiro. Lançaria os dados, avançaria algumas casas. As consequências ficariam restritas ao jogo, não passariam para a vida real.
Contudo aqui não há dados, nem peões, muito menos tabuleiros. A responsabilidade é minha, somente minha. Espero tomar a decisão certa. Dar um xeque-mate. Ou seria a cartada final?
Ah, quer saber? Chega de devaneios e suposições. As chances são pequenas, mas vou em frente. Suando, tremendo, sem confiança, mas persisto.
Quem sabe ela gosta de mim?
Há vida fora do planeta Terra?
Mas não me refiro a essa perguntas tão complexas da ciência que já foram, inclusive, respondidas ao longo dos anos. Minha dúvida é mais particular, quase uma angústia existencial.
Será que devo ir em frente? Acreditar em mim? E se eu for rejeitado? E se rirem da minha cara? Não, não posso pensar assim. Esse tipo de pensamento só me deixa ainda mais ansioso e pessimista.
Minha família sempre falou para eu acreditar mais em mim, ser mais confiante. Mas o problema é agir. Ainda mais depois de tantas decepções, tantas lágrimas derramadas... A ferida ainda dói.
Seria tão mais simples se alguém estivesse disposto a me ouvir, tentar entender o que estou passando. No entanto, onde estão meus conhecidos nessas horas?
Certamente, seria bem mais fácil se a vida fosse um mero jogo de tabuleiro. Lançaria os dados, avançaria algumas casas. As consequências ficariam restritas ao jogo, não passariam para a vida real.
Contudo aqui não há dados, nem peões, muito menos tabuleiros. A responsabilidade é minha, somente minha. Espero tomar a decisão certa. Dar um xeque-mate. Ou seria a cartada final?
Ah, quer saber? Chega de devaneios e suposições. As chances são pequenas, mas vou em frente. Suando, tremendo, sem confiança, mas persisto.
Quem sabe ela gosta de mim?
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Setembro
Na sala de casa, um porta-retrato guarda uma doce lembrança. Em preto-e-branco, a foto já demonstra sinais de envelhecimento. A imagem vai aos poucos se apagando e o papel fica amarelado.
Quem adentra aquela residência, se depara de imediato com a foto do casamento dos donos da casa. A imagem denuncia a alegria daqueles dois, então recém-casados. Mas o tempo também se mostra implacável. O marido já não tem mais aquele penteado certinho, ajeitado com gel para a ocasião. Na verdade, hoje os fios sãos parcos e raros. A esposa, por sua vez, já não tem a mesma elegância de outrora. Acabou engordando um pouco com o passar dos anos.
Todavia, já não temos mais tempo para ficar admirando a foto e se prendendo ao passado. Está na hora de nosso casal dar sua tradicional caminhada.
A chegada até a rua e, posteriormente, até a praça, é complicada. Os dois já não têm a mobilidade de outros tempos. Precisam andar devagar, passo-a-passo. O marido precisa também do auxílio da bengala. Mas nada disso tira a motivação do casal para mais um dia juntos.
Sentados e mais aliviados, procuram agora esticar as pernas. Sentem então as primeiras dores da caminhada: nos joelhos, nos pés, nos quadris... Aos poucos, contudo, tentam esquecer a dor e começam a prestar atenção ao redor: o sol batendo, as crianças brincando nos balanços e o vendedor de algodão-doce. Junto a isso tudo, surgem também algumas lembranças. Como a do dia em que se conheceram, das viagens com os amigos, da surpresa da gravidez da esposa, da alegria do primeiro neto...
De repente, algo inusitado acontece: os dois acabam se dando as mãos, sem combinar nada com o outro. Algo espontâneo.
E assim permanecem as mãos, entrelaçadas, por toda aquela manhã ensolarada de setembro.
Quem adentra aquela residência, se depara de imediato com a foto do casamento dos donos da casa. A imagem denuncia a alegria daqueles dois, então recém-casados. Mas o tempo também se mostra implacável. O marido já não tem mais aquele penteado certinho, ajeitado com gel para a ocasião. Na verdade, hoje os fios sãos parcos e raros. A esposa, por sua vez, já não tem a mesma elegância de outrora. Acabou engordando um pouco com o passar dos anos.
Todavia, já não temos mais tempo para ficar admirando a foto e se prendendo ao passado. Está na hora de nosso casal dar sua tradicional caminhada.
A chegada até a rua e, posteriormente, até a praça, é complicada. Os dois já não têm a mobilidade de outros tempos. Precisam andar devagar, passo-a-passo. O marido precisa também do auxílio da bengala. Mas nada disso tira a motivação do casal para mais um dia juntos.
Ao chegar à praça, exaustos, procuram um lugar para descansar. Uma moça cede, gentilmente, seu lugar no banco. O casal reluta à primeira oferta, mas acaba cedendo. Sorriem para a jovem como forma de agradecimento.
Sentados e mais aliviados, procuram agora esticar as pernas. Sentem então as primeiras dores da caminhada: nos joelhos, nos pés, nos quadris... Aos poucos, contudo, tentam esquecer a dor e começam a prestar atenção ao redor: o sol batendo, as crianças brincando nos balanços e o vendedor de algodão-doce. Junto a isso tudo, surgem também algumas lembranças. Como a do dia em que se conheceram, das viagens com os amigos, da surpresa da gravidez da esposa, da alegria do primeiro neto...
De repente, algo inusitado acontece: os dois acabam se dando as mãos, sem combinar nada com o outro. Algo espontâneo.
E assim permanecem as mãos, entrelaçadas, por toda aquela manhã ensolarada de setembro.
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