quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O homem invisível

O jornalista do Fantástico que não pode mostrar seu rosto

Se um dia você encontrar com ele na rua, passará direto. Dono dos principais prêmios dedicados à imprensa brasileira (Esso, Embratel, Libero Badaró, Direitos Humanos de Jornalismo, entre outros), Eduardo Faustini é lembrado no Brasil inteiro por suas reportagens no Fantástico, mas poucos conhecem seu rosto. Por medida de segurança, ele não pode exibi-lo.

Na sede da Rede Globo, onde trabalha, basta dar uma volta para ver como ele é querido por seus colegas. Não há um que não pare para cumprimentá-lo. O reconhecimento é justo. Faustini é um dos principais jornalistas do país e autor de grandes reportagens investigativas na TV. Em uma das mais recentes, ele se passou por um gestor de compras do Hospital de Pediatria da UFRJ e flagrou com suas câmeras escondidas esquemas de propina e manipulação de resultados em licitações na área de saúde. Seu objetivo, ele garante, “não é punir nem prender alguém, mas sim informar”. A punição ele deixa com a polícia.

Faustini também já mostrou a falta de preparo dos principais aeroportos brasileiros, ao despachar em uma mala uma réplica de AR-15, um pacote de açúcar simulando cocaína e R$100 mil em notas falsas. Não foi parado em nenhuma das viagens.

O jornalista recebe ameaças diárias e não pode deixar a sede da emissora sem a presença de seus seguranças que o acompanham 24h por dia. Quando faz uma grande reportagem, é obrigado a sair do país por tempo indeterminado. Nessa entrevista, Faustini não conta detalhes de sua vida pessoal, família e intimidade.  É a sua vida que está em jogo.

Como você começou no jornalismo? Chegou a cogitar outro curso?
Sempre quis fazer jornalismo. Trabalhei em jornal, fiz um pouco de esporte. Estou há 18 anos no Fantástico, mas passei pelo SBT e Manchete também. Fiz o programa Documento Especial, que tinha uma audiência muito grande. Lá era a notícia que chamava a atenção, o repórter não mostrava seu rosto.

Como é o processo de criação de suas matérias? Você que surge com uma ideia e faz uma pauta ou aceita sugestões dos outros jornalistas?
Noventa e nova por cento das pautas são minhas, eu mesmo que sugiro. Preciso acreditar muito na minha pauta, mas quando geralmente a escolho é porque já pesquisei bastante e sei como fazer. Recebo muitas sugestões por e-mail, redes sociais e pelo denuncie.eduardofaustini@gmail.com. Às vezes, uma pequena denúncia é um start para algo maior. Gosto muito do que está no imaginário popular: todo mundo sabe que existe, mas na TV é a primeira vez em que é mostrado. A força da imagem e do vídeo é muito grande.  Tudo o que eu falo tenho que mostrar.

Quanto tempo você gasta em cada uma de suas matérias? Você trabalha exclusivamente nela?
Em média, dois meses trabalhando exclusivamente em cada matéria. O jornalismo investigativo demanda muito tempo e nem sempre traz resultados. Já teve uma vez em que fiquei 12 horas num lugar para fazer uma imagem de 15 segundos.

Você tem preocupações sobre qual roupa vestir em determinadas ocasiões, de acordo com a matéria?
Você é o que você veste. O visual é muito importante. Preciso estar vestido de acordo como que faço, com o ambiente frequentado.

Quais os “infiltrados” brasileiros você admira?
Em revista são vários. Mas sei mais de TV, porque é o que acompanho. Gosto do Giovani Grizotti, (RBS); do Tyndaro Menezes (Rede Globo), que trabalha mais com os bastidores; do Rubens Valente (Folha de São Paulo); do Amaury Ribeiro Jr (autor do livro “A privataria tucana”) e do Caco Barcellos (Rede Globo).

Qual a diferença entre o jornalismo investigativo e os demais tipos de profissionais dessa área?
O jornalista investigativo nunca está satisfeito com a apuração. Ele não se conforma só com o quê, quem, quando, onde, como e por quê. Ele quer mais. O jornalista investigativo não investiga para punir, nem prender, mas para informar. Quem investiga para punir é a polícia. Não quero saber se o ministro vai cair, se o dono da empresa vai ser preso...

A morte de Tim Lopes foi marcante. A partir daí, surgiu uma nova forma de tratamento entre repórteres e traficantes e um maior investimento em equipamentos de segurança. Desde então, o que mudou efetivamente em seu trabalho e no jornalismo investigativo?
A morte do Tim é um divisor. Ela jogou luz numa atividade que era feita na sombra, de forma solitária. Algumas pessoas pensavam que esse tipo de jornalismo estaria fadado ao fim. Mas aconteceu o contrário. O jornalismo investigativo ganhou muita visibilidade e se fortaleceu. Surgiu a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e a melhora nos equipamentos de segurança. Contudo, essa visibilidade me preocupa. O repórter não é artista, nem celebridade.

Você se sente incomodado em não poder receber pessoalmente seus prêmios?
Fico vaidoso e guardo todos os meus prêmios. Já ganhei todos eles. Só não posso é buscar. Mas não faço matéria para ganhar prêmio, nem acredito que alguém faça isso.

Não conhecer seu rosto dificulta o reconhecimento das pessoas ao seu trabalho?
As pessoas não me conhecem, mas acompanham meu trabalho e rezam por mim. É uma  relação de família. Elas me alimentam. Gosto muito desse retorno do publico. 

Alguns advogados (Bruno Silva Rodrigues e Diego Tebet da Cruz) escreveram um artigo após sua mais recente matéria (em que atua como gestor da UFRJ e mostra as fraudes nas licitações da saúde) dizendo que o que você faz não é constitucional. Você tomou ciência desse material?
Pergunto a serviço de quem eles fizeram isso. Não entro na questão jurídica, pois não sou advogado. Faço isso (trabalho com câmera escondida e jornalismo investigativo)  em TV há quase 30 anos e nunca fui processado. Ao contrário: sou sempre escolhido como testemunha do Ministério Público e da Polícia Federal. Pratico o jornalismo investigativo com responsabilidade social. Durmo tranquilo, porque sei que estou fazendo a coisa certa. Eu faço apenas, não coloco no ar. A direção aprova e coloca na TV.

No mesmo artigo, eles reclamam do uso da câmera escondida...

A microcâmera é meu último recurso. Sempre me pergunto se não é possível usar a câmera aberta. Até porque elas costumam ser de péssima qualidade, você não sabe o que está filmando. É como um voo cego. Em casa com a TV em HD, o telespectador sente a diferença na qualidade das imagens.

Não dá um certo nervosismo quando você faz essas matérias de denúncia? Como você lida com o medo?
Não é só o medo do perigo. É o medo de não dar certo. Sem ele, você não tem parâmetro e coloca a equipe em risco. Mas o medo geralmente eu só sinto depois, quando meu corpo reage e fico com febre.  Na hora eu tenho que falar firme. Não sinto fome, nem sede. Desenvolver esse domínio sobre o corpo é fundamental. Ninguém fica nervoso no dia-a-dia.  Se eu tremer ou gaguejar, ponho tudo a perder. Sinto-me mais tranquilo fazendo uma matéria do que sendo entrevistado.

De todas as suas reportagens, qual você sentiu mais medo?
Foi quando estive dentro do “caveirão” da polícia. Senti muito medo. Seria a única matéria em que não faria de novo. Eram 12 homens dentro de um carro atirando, na mesma favela em que o Tim tinha sido morto. Me senti como um patinho no parque.  

Como você reage às ameaças que recebe?
Isso acontece em qualquer matéria. Já mando entrar na fila para me matar. Não é deboche. As pessoas ligam aqui para a redação e eu escuto aquele bando de besteiras.  Na maioria das vezes, é um desabafo. A própria família do acusado não acredita e se sente no direito de me ameaçar ao telefone.

Em entrevista à Revista Trip você contou como é difícil a sua rotina e de sua família fora do ambiente de trabalho. Você comenta em casa sobre as matérias que está apurando?
Não comento com ninguém sobre minhas matérias. Mas, pela chamada, minha família já sabe quando é o meu material. Antes meus vizinhos me ligavam depois da reportagem ir ao ar, perguntando o porquê de continuar fazendo aquilo. Mas não adianta: não consigo parar. É o meu vício.
Como é sua relação com sua família e filhos? O que gosta de fazer nas horas de folga?Não tenho problemas com minha família. Consigo acompanhar bem os meus filhos. Gosto de ir ao restaurante com eles, de viajar, assistir os jogos do Vasco... Tento fazer da minha casa um lugar aconchegante.

O jornalista Regis Rösing diz que você é Deus.  Você é reverenciado por todos. Mas como você se definiria, Eduardo Faustini por Eduardo Faustini?
Isso é uma brincadeira do Regis, que é meu amigo. Sou um repórter com muitas limitações e sei mais do que ninguém delas. Mas me dedico muito e sou um apaixonado pelo que faço. Não tenho privilégios, sou como qualquer um na redação.

Há alguma nova matéria que você ainda gostaria de fazer?
Tenho o projeto de entrar com micro câmeras em vários lugares, aonde ninguém desconfia. O maior castigo que Deus poderia me dar é a doença de Parkinson. Aí não teria como eu realizar essas matérias...

Quais dicas você daria para um repórter que quer se infiltrar?
Nenhuma faculdade forma jornalista investigativo. Isso é uma coisa que se conquista no dia-a-dia. A primeira coisa é você gostar do que faz. Pensar se gostaria de estar naquele lugar e naquelas condições. O jornalismo é um trabalho de risco, sem glamour. O Brasil tem uma grande quantidade de jornalistas mortos. Depois, é necessário se dedicar, procurar equipamentos e conhecimento.  Hoje as pessoas têm seu espaço mesmo sem aparecer no vídeo.  Nenhuma matéria vale uma vida, mas você não pode deixar de ter um risco calculado.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Melhores do Brasileirão 2013

O campeonato Brasileiro não acabou, mas já se conhece o campeão (Cruzeiro) e um dos rebaixados (Náutico). Os principais sites de esporte do país já começam a fazer listas com os destaques da competição. Assim como foi feito no primeiro turno, confira aqui os melhores nos troféus Armando Nogueira e Bola de Prata além de uma pequena análise.

Será que há três rodadas do fim, temos uma boa seleção? E quem é o craque do campeonato?


Goleiros:
Troféu Armando Nogueira
  • Fábio (Cruzeiro) – 6,69
  • Jefferson (Botafogo) – 6,52
  • Aranha (Santos) - 6,47
Bola de Prata
  • Fábio (Cruzeiro) – 6,37
  • Jéfferson (Botafogo) – 6,30
  • Renan (Goiás) – 6,14
Lateral direito:
Troféu Armando Nogueira
  • Mayke (Cruzeiro) – 6,23
  • Ayrton (Vitória) – 6,16
  • Sueliton (Criciúma) – 6,15
Bola de Prata
  • Mayke (Cruzeiro) – 6,03
  • Leonardo Moura (Flamengo) – 5,88
  • Luís Ricardo (Portuguesa) – 5,78
Zagueiro:
Troféu Armando Nogueira
  • Rodrigo (Goiás) – 6,42
  • Dedé (Cruzeiro) – 6,37
  • Gil (Corinthians) – 6,28
  • Manoel (Atlético-PR) – 6,27
  • Bruno Rodrigo (Cruzeiro) – 6,22
Bola de Prata
  • Rodrigo (Goiás) – 6,10
  • Dedé (Cruzeiro) – 6,07
  • Rodrigo Caio (São Paulo) – 6,02
  • Gil (Corinthians) – 6,01
  • Rhodolfo (Grêmio) – 6,00
Lateral esquerdo:
Troféu Armando Nogueira
  • Carlinhos (Fluminense) – 6,09
  • Juan (Vitória) – 6,00
  • Danilo Tarracha (Vitória) – 6,00
Bola de Prata
  • Alex Telles (Grêmio) – 5,84
  • Carlinhos (Fluminense) – 5,76
  • Júlio César (Botafogo) – 5,70
Volantes:
Troféu Armando Nogueira
  • Lucas Silva (Cruzeiro) – 6,47
  • Elias (Flamengo) – 6,45
  • Nilton (Cruzeiro) – 6,39
  • Ralf (Corinthians) – 6,27
  • Júnior Urso (Coritiba) – 6,25
Bola de Prata
  • Nilton (Cruzeiro) – 6,21
  • Elias (Flamengo) – 6,05
  • Lucas Silva (Cruzeiro) – 5,94
  • Ralf (Corinthians) – 5,92
  • Serginho (Criciúma) – 5,92
Meias:
Troféu Armando Nogueira
  • Éverton Ribeiro (Cruzeiro) – 6,75
  • Paulo Baier (Atlético-PR) – 6,68
  • D'Alessandro (Internacional) – 6,59
  • Alex (Coritiba) – 6,49
  • Juninho (Vasco) – 6,45
Bola de Prata
  • Éverton Ribeiro (Cruzeiro) – 6,52
  • D'Alessandro (Internacional) – 6,34
  • Seedorf (Botafogo) – 6,31
  • Montillo (Santos) – 6,38
  • Cícero (Santos) – 6,15
Atacantes:
Troféu Armando Nogueira
  • Walter (Goiás) – 6,81
  • Fernandinho (Atlético-MG) – 6,55
  • Diego Tardelli (Atlético-MG) – 6,51
  • Gilberto (Portuguesa) – 6,50
  • Marcelo (Atlético-PR) – 6,48
Bola de Prata
  • Walter (Goiás) - 6,45
  • Diego Tardelli (Atlético-MG) – 6,10
  • Jô (Atlético-MG) – 6,05
  • Fernandinho (Atlético-MG) – 6,03
  • Gilberto (Portuguesa) – 6,02
Craque:
Troféu Armando Nogueira
  • Walter (Goiás) – 6,81
  • Éverton Ribeiro (Cruzeiro) – 6,75
  • Fábio (Cruzeiro) – 6,69
  • Paulo Baier (Atlético-PR) – 6,68
  • D’Alessandro (Internacional) - 6,59
Bola de Prata
  • Éverton Ribeiro (Cruzeiro) – 6,52
  • Walter (Goiás) – 6,45
  • Fábio (Cruzeiro) – 6,37
  • D'Alessandro (Internacional) – 6,34
  • Seedorf (Botafogo) – 6,31
Minha seleção:

  • Jéfferson (Botafogo)
  • Myke (Cruzeiro)
  • Manoel (Atlético-PR)
  • Dedé (Cruzeiro)
  • Alex Telles (Grêmio)
  • Nilton (Cruzeiro)
  • Elias (Flamengo)
  • Éverton Ribeiro (Cruzeiro)
  • Walter (Goiás)
  • Diego Tardelli (Atlético-MG)
  • Hernane (Flamengo)
Observações:
Troféu Armando Nogueira
  • A seleção ficaria assim: Fábio, Mayke, Rodrigo e Dedé, Carlinhos; Lucas Silva, Elias, Éverton Ribeiro, Paulo Baier; Walter e Fernandinho.
  • Dos 11 melhores, quatro jogadores têm passagens pela Seleção Brasileira principal (Fábio, Dedé, Carlinhos e Elias), mas apenas Dedé teve (poucas) chances com Felipão.
  • O Cruzeiro é o clube com mais representantes entre os melhores: nove. Se fôssemos escalar a seleção do campeonato com 11 jogadores no esquema 4-4-2, cinco jogariam na Raposa.
  • O segundo clube com mais indicações é o Atlético-PR com três, mas apenas um deles (Paulo Baier) seria titular na seleção do campeonato.
  • Em relação à seleção do primeiro turno, há bastante mudança. Apenas Mayke, Carlinhos, Elias e Walter se mantiveram entre os melhores em suas posições. Nos dois primeiros casos, os atletas jogaram menos no segundo turno.
Bola de Prata
  • A seleção seria assim: Fábio, Mayke, Rodrigo, Dedé e Alex Telles; Nilton, Elias, Éverton Ribeiro, D'Alessandro; Walter e Diego Tardelli. Há quatro diferenças em relação à do troféu Armando Nogueira.
  • O Cruzeiro é novamente o clube com mais indicações: seis. Na seleção no 4-4-2, cinco atletas da equipe campeã seriam titulares.
  • O Atlético-PR não tem nenhum indicado entre os melhores
  • Botafogo e Goiás têm três indicações cada. No caso do alvinegro, nenhum seria titular, enquanto no esmeraldino seriam dois.
  • Cinco jogadores se mantêm na seleção desde o primeiro turno: Alex Telles, Nilton, Elias, Éverton Ribeiro e Walter.
Outras
  • O Cruzeiro não tem laterais-esquerdos e atacantes indicados em nenhuma das duas premiações. 
  • O artilheiro do campeonato, Éderson, não aparece em nenhuma das duas listas. Dos que mais marcaram gols, estão na lista apenas Gilberto e Walter.
  • As notas no Bola de Prata são mais rigorosas.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Os verdadeiros interesses dos grandes eventos esportivos

Follow the money. A famosa frase imortalizada por Garganta Profunda no filme “Todos os homens do presidente” é uma lição que os jornalistas Lúcio de Castro, Andrew Jennings e Rob Rose aprenderam após anos de investigações esportivas.
Na palestra realizada nesse sábado no auditório Del Castilho, na Conferência Global de Jornalismo Investigativo, Lúcio de Castro contou detalhes de como investigou, em 2009, o então presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), Ricardo Teixeira. “Todos os caras assim têm um homem de finanças por trás. Faltava descobrir quem era esse cara”.
Após uma extensa pesquisa que envolveu a consulta de documentos na Justiça e em juntas comerciais, o jornalista da ESPN Brasil descobriu que o “cara” era Claudio Honigman. Com a ajuda de uma ex-mulher do empresário, Lúcio mapeou o esquema armado pelo ex-presidente da CBF e as empresas de Claudio. “Ricardo Teixeira era sócio dessas empresas e se beneficiava do dinheiro que a seleção brasileira ganhava”.
Recentemente, Lúcio também investigou as participações das empreiteiras nas obras no Maracanã. “O que mais me chamava a atenção é como um patrimônio histórico tombado pode ser modificado sem a autorização da Presidência da República”, algo que é proibido por lei.
As intervenções na estrutura do estádio foram permitidas graças ao ex-superintendente do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico Nacional) Carlos Fernando de Souza Leão Andrade. Após sair do instituto, Carlos recebeu um cargo no governo do Estado, o que teria facilitado a sua atuação na obra que custou mais de R$ 1,2 bilhão. “O que aconteceu na reforma do Maracanã foi um crime. A história foi silenciada. Isso mostra as forças das empreiteiras no Brasil”, desabafou Lúcio de Castro.

Estouro no orçamento é uma situação também conhecida por Rob Rose, jornalista sul-africano do Sunday Times. “A Copa na África do Sul custou mais de US$ 3,5 bilhões. Mas o que ficou de legado para o país? Não muito.”

Rob Rose fez duras críticas à Fifa e a forma como a entidade atua nos países que recebem a Copa do Mundo. “A Fifa controla a Copa como se fosse a mão de Deus. Como se tivéssemos que ficar muito gratos por sediar o evento.”
O estádio de Green Point, na Cidade do Cabo, na África do Sul, foi citado como exemplo de elefante branco construído por exigência da federação. “É um lugar lindo, mas no meio do nada. Mas Blatter (presidente da Fifa) queria um estádio ali.”

Para Andrew Jennings, escocês que em 2006 lançou o livro “Jogo Duro” contando os esquemas de corrupção da Fifa, é preciso voltar ao processo de construção dos estádios para entender melhor a história. “A mentira vem desde o início.” O repórter lembra que, no começo, profissionais estimaram os custos das obras. “A pessoa sabe o preço de tudo: encanamento, torneiras. Mas o que aconteceu com esse custo?”, indaga ele.
É nesse ponto que entra o trabalho do jornalista investigativo para Andrew. Ele, que demorou nove anos até conseguir provas concretas sobre a corrupção na Fifa, defende que os próprios profissionais de imprensa brasileiros passem a investigar as entidades do país. Ao ser indagado durante a palestra, por exemplo, sobre as atuais relações entre a CBF e a Fifa, o escocês deu um recado. “Esse é o trabalho de vocês aqui (no Brasil).”

domingo, 3 de novembro de 2013

Terceiro round


Ele era um dos lutadores de boxe mais reconhecidos de sua época. Mas ultimamente tinha perdido espaço nos jornais e no coração dos fãs do esporte com a ascensão de novo grupo de lutadores, fortes e jovens que sabiam muito bem usar a mídia ao seu favor.

Buscava recuperar o tempo e o espaços perdidos e mostrar que, sim, ainda tinha fôlego mesmo diante de todos os problemas que tinha enfrentado nos últimos meses. Para isso, tinha uma luta marcada que seria a chance que precisava para voltar de vez.

Só ele e pouquíssimas pessoas de sua família sabiam de todos os problemas recentes que tinha enfrentado. Ele poderia ter ido a um canal de TV contar o que estava acontecendo. O mesmo canal de TV que tantas vezes mostrava suas lutas e corria atrás dele quando ele vencia. Mas ele preferiu ficar calado.

A nova luta era uma grande oportunidade para esquecer todo o passado, deixar os problemas de lado e recuperar a confiança. Estava até retomando o ritmo dos treinos.

No grande dia, um certo nervosismo tomava conta dele. Ainda frio e nervoso a luta começou. O primeiro golpe veio rápido. Ficou tonto, viu o mundo girar e as arquibancadas embaçadas. Só depois conseguiu se recuperar e voltou à luta.

Aos poucos o nervosismo foi passando e os golpes começaram a entrar. O adversário balançou. Na sua cabeça, ele relembrava os bons tempos em que era dono do cinturão. Era forte, jovem e julgava-se invencível. "Por que não poderia ser assim novamente?"

No momento em que estava nais confiante e melhor na luta, tomou um novo golpe. Na cara. Caiu no chão. Não tinha visto aquele direto passar. "Onde estava com a cabeça naquela hora?"

Tonto e sem saber exatamente o que acontecia, voltou mais uma vez para a luta. Agora com a cara já inchada e ensaguentada.

No terceiro round, ele beijou a lona. Não pensou nada. Estava desacordado. Quando finalmente retomou a consciência e voltou a si, não havia mais luta. Escuro. Estava no hospital.

Ele não era mais o alvo dos flashes e dos gritos da torcida. Os jornais contam que o terceiro golpe foi fundamental para o nocaute. Mas para ele o que mais doeu não foi o soco, o rosto, as pernas ou  o fim. A maior dor era ver que estava sozinho em um quarto de hospital depois de tudo aquilo que tinha vivido. Sem ninguém perguntar por ele.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Melhores do primeiro turno - Brasileirão

Com o fim do primeiro turno do campeonato Brasileiro, os matemáticos já começam a fazer as previsões sobre quem será campeão, rebaixado ou não vai a lugar nenhum. 

Essa passagem simbólica entre turnos também marca o início das temporadas de listas: o gol mais bonito e, principalmente, os melhores jogadores. Dois dos principais veículos de comunicação esportiva do país (Globoesporte.com e Placar) criaram prêmios específicos (Troféu Armando Nogueira e Bola de Prata) para eleger os melhores jogadores do campeonato.

Durante as 19 rodadas, foram atribuídas notas aos atletas e os cinco melhores em cada estão aqui relacionados. A partir das notas dadas pelos comentaristas, é possível extrair algumas informações interessantes. 

Confira abaixo e aproveite para deixar sua opinião: quem são os melhores do Brasil até agora?


Top 5 

Troféu Armando Nogueira

Juninho (Vasco) – 6,95
Alex (Coritiba) - 6,76
Éverton Ribeiro (Cruzeiro) -6,72
Seedorf (Botafogo) – 6,72
Elias (Flamengo) – 6,64

Bola de Prata

Seedorf (Botafogo) – 6,66
Éverton Ribeiro (Cruzeiro) – 6,44
Ronaldinho (Atlético MG) – 6,44
Alex (Coritiba) – 6,42
Jéfferson (Botafogo) – 6,41

Goleiro 

Troféu Armando Nogueira

Jefferson (Botafogo) -6,55
Vanderlei (Coritiba) -6,50
Aranha (Santos) -6,46
Diego Cavalieri (Fluminense) – 6,39
Renan (Goiás) – 6,38

Bola de Prata

Jéfferson (Botafogo) – 6,41
Aranha (Santos) – 6,32
Fábio (Cruzeiro) – 6,21
Renan (Goiás) – 6,09
Vanderlei (Coritiba) – 6,03

Lateral direito 

Troféu Armando Nogueira

Mike (Cruzeiro) – 6,21
Léo (Atlético-PR) – 6,17
Sueliton (Criciúma) – 6,15
Luís Ricardo (Portuguesa) – 6,06
Fágner (Vasco) – 5,95

Bola de Prata

Gilberto (Botafogo) – 6,11
Mike (Cruzeiro) – 6,04
Sueliton (Criciúma) – 5,81
Fágner (Vasco) – 5,78
Leo Moura (Flamengo) – 5,69

Lateral esquerdo

Troféu Armando Nogueira

Carlinhos (Fluminense) – 6,15
Egídio (Cruzeiro) – 6,03
Marlon (Criciúma) – 6,03
Fabrício (Internacional) – 6,00
Danilo Tarracha (Vitória) – 6,00

Bola de Prata

Alex Telles (Grêmio) – 5,97
Carlinhos (Fluminense) – 5,88
Fabrício (Internacional) – 5,75
Marlon (Criciúma) – 5,72
Júlio César (Botafogo) – 5,72

Zagueiro 

Troféu Armando Nogueira

Gil (Corinthians) – 6,42
Manoel (Atlético PR) – 6,35
Dória (Botafogo) – 6,32
Leonardo (Criciúma) – 6,25
Dedé (Cruzeiro) – 6,24


Bola de Prata

Gil (Corinthians) – 6,32
Dória (Botafogo) – 6,29
Edu Dracena (Santos) – 6,15
Rodrigo (Goiás) – 6,06
Dedé (Cruzeiro) – 5,97

Volante 

Troféu Armando Nogueira


Elias (Flamengo) – 6,64
Riveros (Grêmio) – 6,31
Souza (Grêmio) – 6,29
Ralf (Corinthians) – 6,28
Nilton (Cruzeiro) – 6,22

Bola de Prata

Nilton (Cruzeiro) – 6,13
Elias (Flamengo) – 6,11
Ralf (Corinthians) – 6,06
Gabriel (Botafogo) – 6,03
Riveros (Grêmio) – 6,00

Meia

Troféu Armando Nogueira

Juninho (Vasco) – 6,95
Alex (Coritiba) – 6,76
Éverton Ribeiro (Cruzeiro) – 6,72
Seedorf (Botafogo) – 6,72
Ronaldinho (Atlético MG) – 6,56

Bola de Prata

Seedorf (Botafogo) – 6,66
Éverton Ribeiro (Cruzeiro) – 6,44
Ronaldinho (Atlético MG) – 6,44
Alex (Coritiba) – 6,42
Montillo (Santos) – 6,31

Atacante

Troféu Armando Nogueira

Walter (Goiás) – 6,50
Leandro Damião (Internacional) – 6,50
Rafael Sóbis (Fluminense) – 6,44
Éderson (Atlético PR) – 6,42
Marcelo (Atlético PR) – 6,41

Bola de Prata

Walter (Goiás) – 6,31
Éderson (Atlético PR) – 6,09
Vitinho (Botafogo) – 6,09
Vinícius Araujo (Cruzeiro) – 6,05
Neílton (Santos) – 5,95


Clubes com maior número de indicados 

Troféu Armando Nogueira

Cruzeiro (6)
Botafogo (4)
Atlético PR (4)

Bola de Prata

Botafogo (9)
Cruzeiro (7)

Minha seleção

Jéfferson (Botafogo)
Mike (Cruzeiro)
Gil (Corinthians)
Dória (Botafogo)
Alex Telles (Grêmio)
Elias (Flamengo)
Éverton Ribeiro (Cruzeiro)
Alex (Coritiba)
Seedorf (Botafogo) 
Walter (Goiás)
Éderson (Atlético PR)

Considerações: 

  • De todos os nomes apenas Jefferson, Cavalieri, Damião são convocados com frequência para a seleção, sendo que os últimos dois não foram chamados na última lista para os amistosos contra Austrália e Portugal.
  • As notas no Bola de Prata são mais rigorosas do que no troféu Armando Nogueira. Em alguns casos, como na lateral esquerda se contasse apenas a média dos jogador, o líder Alex Telles (5,97) não estaria nem entre os cinco primeiros do Troféu Bola de Prata.
  • Dos atacantes que jogam no Brasil chamados pelo Felipão para os amistosos contra Austrália e Portugal, nenhum está na lista dos melhores (Fred, Pato e Jô)



sábado, 31 de agosto de 2013

Holofote


Em campo, ele era o único que não usava chuteiras coloridas. Tampouco usava uma camisa com um patrocinador pessoal debaixo do uniforme. Preferia a discrição.

Apesar de sua qualidade comprovada dentro das quatro linhas, dispensava o status de principal jogador do time. A camisa 10 de tantos ídolos foi substituída pela 8, "bem menos pesada".

Sua postura em campo também era diferente da maioria dos jogadores. Incansável, corria em dobro pela equipe, mas quase não aparecia para a torcida.

Não era artilheiro, mas também marcava de vez em quando. Só não gostava de comemorar em frente às câmeras da TV ou pedindo silêncio a torcida adversária.

Não tinha perfil nas redes sociais, não marcava "flagrantes" com os paparazzi e nem frequentava as casas de shows mais famosas da cidade.

Trabalhando de forma honesta, guardou um pouco do dinheiro para sua família. Preocupado com a preparação física, conseguiu prolongar os anos como atleta.

Verdade que alguns de seus colegas, nem tão talentosos assim, fizeram fama e carreira no exterior. Mas viram tudo desmoronar rapidamente.

Ao não se valorizar como devia, perdeu alguns bons contratos. Também não deu certo com os empresários que tentavam a todo custo vendê-lo para o exterior, valorizar o seu passe e lucrar em cima dele.

Ele era assim. Escolheu ser assim. O anti-marketing.

PS. Essa é uma história de ficção sobre um jogador de futebol. Mas poderia ser mais uma história da vida.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Desconectando...



Há 15 anos, poucos eram os brasileiros que tinham acesso à internet em casa. Mais difícil ainda era encontrar uma boa conexão.

Embora a banda larga no Brasil não seja das mais eficientes, hoje temos acesso a grande rede por telefones, tablets e até TVs.

Essa facilidade faz com que estejamos com um olho na vida real e outro na virtual. O mundo inteiro sabe onde você foi, o que comeu e conhece sua família.

A internet também facilita a vida de muitos profissionais. Eu, por exemplo, e acredito que muitos colegas também o façam, entro várias vezes ao dia nos sites dos principais portais do país para saber as notícias. Às vezes, só sabemos dos principais fatos no noticiário da TV no fim do dia ou pelo rádio, mais "velho", porém sempre ágil.

É engraçado essa "agonia" por atualizações. É quase como se mesmo diante do computador, passivos, quiséssemos dar um "furo" na concorrência. Concorrência no caso é essa formada pelos colegas e pela família. Todo mundo quer dar uma notícia fresquinha para os amigos.

Mas e quando temos que nos desconectar por alguma razão em um período de tempo maior?

Vivi essa experiência recente ainda que por pouco tempo. Confesso que sobrevivi. Tranquilamente. Claro que é bom saber o que acontece no mundo. Mas também não é ruim se desconectar por um tempo. Quando o tempo é bem aproveitado fora da rede nem se sente tanto.