Já vivi vários carnavais. Cresci indo aos bailes no salão do clube aqui do bairro. Depois, migrei para o carnaval de rua, o qual frequento até hoje.
Quando criança, costumava me vestir de super-herói. Aproveitava os lançamentos do cinema e caprichava na fantasia. Por vezes, acreditei que, de fato, tinha superpoderes e era invencível. Era tão boa aquela sensação!
Adolescente, comecei a me preocupar menos com a fantasia. Queria mais era aproveitar a festa. Assim, qualquer camisa daquela coleção de time de futebol que tenho lá em casa bastava. Pensando bem, hoje, anos depois, acho que fazia até um certo sucesso. Não dizem que as mulheres adoram um jogador de futebol? Ahaha
A verdade é que nessa vida de folia, já fui de tudo um pouco. E já me encantei por várias fadinhas, ciganas e Pedritas. Fui sapo à espera do beijo libertador da minha princesa. Fui Pierrot apaixonado por uma Colombina.
Hoje, não sei qual personagem sou eu. Sei que a fantasia é passageira, é o de menos. Não quero me vestir de ilusões, nem usar máscaras para não ver a verdade. Sinceramente, gostaria de me vestir de forma diferente: de mim mesmo. Seria a mais pura e legítima das fantasias.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Primeiro dia de aula
Cabelo penteado cuidadosamente para o lado e a blusa para dentro. Agora, sim, ele está pronto. É seu primeiro dia na escola e sua mãe vai acompanhá-lo até a entrada.
Dentro do carro, já começa a notar as diferenças: não está mais só no banco de trás. Divide o espaço com seu material também. Enquanto isso, sua mãe dá as últimas explicações de onde está cada coisa na mochila, bem de como se portar em seu primeiro dia.
Pela janela do carro, ele inicia uma brincadeira: tentar adivinhar qual é o prédio em que vai estudar. No entanto, passam-se vários e nada. "Não sabia que a escola era tão distante assim." Pergunta, insistentemente, para sua mãe "quanto tempo falta, se está muito longe ainda..." Ela pede para que o menino tenha calma, que logo eles chegam.
Quando ele começa a adormecer, o carro para. "Finalmente chegamos"- avisa a mãe.
"É importante que você me dê a mão para não nos perdermos". Logo no portão de entrada, ele percebe o que a mãe quis dizer com aquilo: há pessoas por todos os lados, um verdadeiro entra-e-sai. Todos são muito maiores que ele e estão uniformizados também. De repente, começa a se sentir mal. Não gostou do lugar e daquela barulheira. Prefere ficar em casa ou no parquinho com seus vizinhos. "Será que isso é realmente necessário?"
Depois de caminhar um pouco já pelas dependências do colégio, ele enfim começa a ver pessoas do seu tamanho. "São os seus novos colegas, filho. Fale um oi para eles". Todavia, ele ainda está meio confuso, perdido e o máximo que consegue é esboçar um sorriso.
Trimmmmmmmmm... Toca o sinal. A aula vai começar. As professoras começam a receber seus alunos e se apresentam.
Nesse momento, sua mãe larga sua mão. Ele logo nota. Ela acena, já longe. A professora passa as primeiras instruções. Ele se aproxima para ouvir melhor.
"Como esse momento é difícil..."
Dentro do carro, já começa a notar as diferenças: não está mais só no banco de trás. Divide o espaço com seu material também. Enquanto isso, sua mãe dá as últimas explicações de onde está cada coisa na mochila, bem de como se portar em seu primeiro dia.
Pela janela do carro, ele inicia uma brincadeira: tentar adivinhar qual é o prédio em que vai estudar. No entanto, passam-se vários e nada. "Não sabia que a escola era tão distante assim." Pergunta, insistentemente, para sua mãe "quanto tempo falta, se está muito longe ainda..." Ela pede para que o menino tenha calma, que logo eles chegam.
Quando ele começa a adormecer, o carro para. "Finalmente chegamos"- avisa a mãe.
"É importante que você me dê a mão para não nos perdermos". Logo no portão de entrada, ele percebe o que a mãe quis dizer com aquilo: há pessoas por todos os lados, um verdadeiro entra-e-sai. Todos são muito maiores que ele e estão uniformizados também. De repente, começa a se sentir mal. Não gostou do lugar e daquela barulheira. Prefere ficar em casa ou no parquinho com seus vizinhos. "Será que isso é realmente necessário?"
Depois de caminhar um pouco já pelas dependências do colégio, ele enfim começa a ver pessoas do seu tamanho. "São os seus novos colegas, filho. Fale um oi para eles". Todavia, ele ainda está meio confuso, perdido e o máximo que consegue é esboçar um sorriso.
Trimmmmmmmmm... Toca o sinal. A aula vai começar. As professoras começam a receber seus alunos e se apresentam.
Nesse momento, sua mãe larga sua mão. Ele logo nota. Ela acena, já longe. A professora passa as primeiras instruções. Ele se aproxima para ouvir melhor.
"Como esse momento é difícil..."
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
A escrita ao longo da vida
Quando somos bebês, toda a vida tem mais cor. Sem responsabilidades a assumir, estamos diante de um mundo novo, cheio de perigos e desafios. Mas nem isso nos preocupa. Tudo que é diferente e colorido passa a nos saltar aos olhos. Adoramos um giz de cera. Basta ver as garatujas que deixamos nas paredes da sala e os rabiscos nos consultórios médicos.
Entramos na escola e somos alfabetizados com lápis e borracha. Somos um tanto inseguros, oscilamos ainda na escrita. "Como se escreve determinada palavra?" Não estamos convictos ainda de quem somos, nem do que escrevemos. Assim, o lápis faz um traço mais fraco, indeciso e a borracha ajuda corrigindo nossos erros.
Na adolescência, é a vez da caneta. A responsabilidade já está maior, assim como nossa revolta com o mundo. Escrevemos forte, com fúria e raiva do papel. Nossas mãos chegam a doer e ter calos. Riscamos todo o papel, puxamos setas, produzindo verdadeiros hieróglifos. E quando tudo isso ainda não é suficiente, usamos o liquid paper. Sujamos e borramos tudo. Admitimos nossa incapacidade diante do papel e queremos recomeçar, como se fosse a vida real. Usando o corretor, temos a falsa impressão de que tudo voltou ao normal: lá está o papel em branco novamente.
Enfim, crescemos. Alguns optam por continuar escrevendo e desenhando. Fazem disso sua profissão. Usam a sutileza do nanquim. Desafiante. É como um bisturi: precisamos de precisão. Não podemos errar ou tudo se estraga, borra.
Agora a moda é escrever no computador. Há pessoas que nem têm mais papel e caneta em casa. Só o PC. Nele, somos padronizados: a mesma fonte, o mesmo espaçamento... Não se vê mais a caligrafia da pessoa propriamente dita. Caligrafia essa que define nosso estilo, angústias e exprime sentimentos. Ficamos engessados. Nossa maior preocupação não é mais guardar com carinho o caderno no qual escrevemos. O importante é saber se salvamos corretamente o arquivo de texto.
Entramos na escola e somos alfabetizados com lápis e borracha. Somos um tanto inseguros, oscilamos ainda na escrita. "Como se escreve determinada palavra?" Não estamos convictos ainda de quem somos, nem do que escrevemos. Assim, o lápis faz um traço mais fraco, indeciso e a borracha ajuda corrigindo nossos erros.
Na adolescência, é a vez da caneta. A responsabilidade já está maior, assim como nossa revolta com o mundo. Escrevemos forte, com fúria e raiva do papel. Nossas mãos chegam a doer e ter calos. Riscamos todo o papel, puxamos setas, produzindo verdadeiros hieróglifos. E quando tudo isso ainda não é suficiente, usamos o liquid paper. Sujamos e borramos tudo. Admitimos nossa incapacidade diante do papel e queremos recomeçar, como se fosse a vida real. Usando o corretor, temos a falsa impressão de que tudo voltou ao normal: lá está o papel em branco novamente.
Enfim, crescemos. Alguns optam por continuar escrevendo e desenhando. Fazem disso sua profissão. Usam a sutileza do nanquim. Desafiante. É como um bisturi: precisamos de precisão. Não podemos errar ou tudo se estraga, borra.
Agora a moda é escrever no computador. Há pessoas que nem têm mais papel e caneta em casa. Só o PC. Nele, somos padronizados: a mesma fonte, o mesmo espaçamento... Não se vê mais a caligrafia da pessoa propriamente dita. Caligrafia essa que define nosso estilo, angústias e exprime sentimentos. Ficamos engessados. Nossa maior preocupação não é mais guardar com carinho o caderno no qual escrevemos. O importante é saber se salvamos corretamente o arquivo de texto.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
O que você anda lendo? - Parte Dois
Se há um tipo de matéria que costuma fazer sucesso aqui no blog é a indicação de livros. Mais uma vez, então, resolvi repetir a dose, consultando também nossos amigos e seguidores pelas redes sociais. Até porque a leitura nunca se esgota, sempre temos algo a aprender com os livros.
. Guerra e paz (Liev Tolstói) -
Mistura entre ficção e realidade, retrata a vida de duas grandes famílias aristocratas e de personagens históricos, como Napoleão e o czar Alexandre I
. Crime e Castigo (Fiódor Dostoiévski) -
Obra mais famosa de Dostoiévski, o que já não é pouco. Nela, um jovem estudante russo comete um crime e tenta ser absolvido
. Revolução dos bichos (George Orwell) -
Escrita durante a Segunda Guerra Mundial, a obra é uma verdadeira alegoria sobre a crueldade dos humanos. Nela, os animais pensam e são dotados de engajamento político.
. O triste fim de Policarpo Quaresma (Lima Barreto) -
Passado no início da República, o personagem principal é uma major nacionalista que tem ideias, no mínimo inusitadas. Por conta dessas, ele é internado e considerado um louco.
. Clara dos Anjos (Lima Barreto) -
Sugestão dos amigos. Uma mulata do subúrbio se apaixona por um jovem de melhor classe social. Você provavelmente conhece outras histórias assim que tratam desse drama.
. Ilusões (Richard Bach)- Sugestão dos amigos. Um livro sobre a história de acreditar. O que acontece quando um homem comum encontra um Messias?
. O ateneu (Raul Pompéia) -
Autobiográfico, o autor relata o período de sua adolescência que viveu dentro de um colégio interno, sofrendo na transição de menino-homem.
. Comédia em pé, o livro (vários autores) -
Livro sobre o primeiro show de stand-up comedy brasileiro. Escrito pelos humoristas Cláudio Torres Gonzaga, Fábio Porchat, Fernando Caruso, Paulo Carvalho e Léo Lins.
. E se o stand-up virasse livro? (Maurício Meirelles) -
Formado em Publicidade, Mauricio ama mesmo o humor. Nesse livro, ele reúne o melhor de seus textos, suas apresentações e piadas.
. Presa (Michael Crichton) -
Sugestão dos amigos. Uma experiência no deserto de Nevada escapa do laboratório e acaba provocando uma nuvem de nanopartículas autossustentáveis.
. Sol Nascente (Michael Crichton) -
Sugestão dos amigos. O livro conta a história de uma investigação de um assassinato no lançamento da sede de uma empresa japonesa em Los Angeles.
. O fim da eternidade (Isaac Asimov) -
Sugestão dos amigos. Viagens no tempo e paradoxos temporais em mais uma excelente história de um dos mais inventivos nomes da ciência do século XX.
. Eu, robô (Isaac Asimov) -
Sugestão dos amigos. Série de contos que tem com base as "3 Leis da Robótica", criadas pelo autor e de grande influência na ficção científica.
. Jornal Nacional, a notícia faz história (vários autores) -
Esse livro conta a história por trás dos 35 anos de sucesso do maior telejornal brasileiro, líder absoluto de audiência. Seis vezes por semana, os brasileiros esperam até às 20:30 para ouvir as principais notícias do dia e responder um certo boa noite.
. Botafogo, O Glorioso (Roberto Porto) -
O renomado jornalista alvinegro agora recorre a amigos, celebridades e até desconhecidos para contar a história do Botafogo Futebol e Regatas, bem como suas superstições, ídolos, conquistas e fracassos.. Passos do Campeão, o Botafogo na conquista da Taça Brasil de 1968 (Auriel de Almeida) -
O reconhecimento oficial só veio em 2010, com a unificação dos títulos brasileiros pela CBF. Agora, a Taça Brasil de 1968 equivale à conquista de um Campeonato Brasileiro. Nada mais justo com um time que contava com craques como Gerson, Jairzinho e Paulo Cézar Caju.
sábado, 28 de janeiro de 2012
Cobertura do evento "Erico Verissimo e Incidente em Antares"
No último dia 26, quinta-feira, foi realizado no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro um bate-papo com participação dos jornalistas Luis Fernando Verissimo e Sérgio Rodrigues intitulado "Erico Verissimo e Incidente em Antares". Além de abordar o livro propriamente dito, o evento se mostrou uma ótima oportunidade para o público conhecer melhor a obra do autor gaúcho, que teve trechos de sua vida relembrados por seu filho, Luis Fernando.
O Instituto recebeu grande público e lotou a sala de cursos. Alguns outros jornalistas também estavam presentes, como Arthur Dapieve e Zuenir Ventura, além de uma equipe do canal GloboNews, que fazia gravações no local.
A escolha do local e o nome da palestra não foram por acaso. Desde 2009, o Instituto Moreira Salles abriga o acervo literário de Erico Verissimo. Uma biblioteca foi formada para tal, contendo cerca de 1900 itens, entre livros, periódicos e manuscritos. Aos interessados, é possível ter acesso ao acervo.
O evento também foi uma forma encontrada pelo Instituto de homenagear os 40 anos do último livro do escritor, "Incidente em Antares", lançado em 1971. Planejado para o fim do ano passado, o evento acabou não acontecendo na data prevista devido à incompatibilidade de agendas e datas entre os dois principais palestrantes.
O bate-papo começou com Sérgio Rodrigues falando. Esse afirmou que foram os livros de Erico Verissimo que o fizeram optar em seguir a carreira de jornalista e escritor. Rodrigues mostrou grande interesse também pelos prefácios escritos pelo próprio Erico em suas obras, quando essas ainda eram lançadas pela editora Globo.
Na época do lançamento do livro, o Brasil vivia sob o regime militar da ditadura, que, por vezes, chegou a censurar inúmeras publicações. No entanto, a prática de censura aos livros propriamente ditos não era tão comum. Quando essa hipótese de censura aos livros foi cogitada pelo então ministro Alfredo Buzait, a classe de escritores se manifestou rapidamente. Além de Erico Verissimo, autores como Jorge Amado vieram a público criticar a medida, que acabou perdendo forças e não sendo aprovada. Aproveitando-se da polêmica, o livro foi lançado pela editora Globo de Porto Alegre com um sugestivo slogan : "Em um país totalitário, esse livro seria proibido."
O livro "Incidente em Antares" se passa em uma cidade fictícia chamada Antares, no Rio Grande do Sul, no ano de 1963, ou seja, às vésperas do regime militar. Mas poderia ser em qualquer cidade, na verdade, como bem ressalta Luis Fernando: "no fundo, Antares é um microcosmo do mundo inteiro". Fazendo um breve resumo para quem não conhece a história (e aqui já fica a recomendação para conhecer essa obra) e sem contar o final: sete pessoas morrem em Antares. Contudo, na época havia uma greve de coveiros na cidade, o que impedia que os corpos fossem devidamente enterrados. Sem saber o que fazer então, esses sete mortos resolvem ir ao coreto da praça principal para aguardar o desfecho da greve, chamando a atenção de todos os moradores da cidade. Mas o que mais impressiona, como bem destacou Sérgio Rodrigues, "é que os mortos falam coisas que muitos vivos não diriam".
O livro é dividido ainda em duas partes. A primeira se propõe a apresentar a cidade de Antares, bem como o contexto em que estava inserida: em meio às oligarquias do Rio Grande do Sul. A segunda, bem menor que a primeira, já trata do incidente em si.
Há ainda alguma semelhanças entre "Incidente em Antares" e a trilogia o "O Tempo e o Vento". Para Sérgio Rodrigues, "Antares seria uma espécie de Santa Fé (principal cidade da trilogia) mais caricatural", "é a retomada d'O Tempo e o Vento em forma de farsa". Além disso, um dos personagens citados em "Incidente", Martin Francisco, era da família Terra-Cambará, família que tem sua vida retratada na trilogia.
A inspiração para essa última obra veio a partir de uma própria greve de coveiros ocorrida no Estados Unidos, na época em que Erico morava lá, lecionando a disciplina de Literatura Brasileira na Universidade da Califórnia.
Os Estado Unidos, por sinal, geravam fascínio em Erico. Para ele, lá estava a verdadeira representação de democracia na época e a liberdade de expressão. Não à toa, chegou a morar no país duas vezes, uma convidado pelo próprio Departamento de Estado Americano. Anos depois, no entanto, ele viria a se desiludir com o país e sua política externa. Tal insatisfação pode ser observada em um de seus romances, "Senhor Embaixador", publicado em 1965.
A obra de Erico Verissimo costuma ser dividida em 3 partes. A primeira fase seria a dos romances urbanos, como "Clarissa" e iria até o livro "O resto é silêncio" (1943). A segunda parte seria composta pela trilogia "O Tempo e o Vento", dividida nas obras "O continente", "O retrato" e "O arquipélago". Curiosamente, tanto Erico quanto seu filho Luis Fernando têm como seu romance preferido "O continente". Luis Fernando se recorda ainda dos tempos de criança quando ficava ao lado da máquina de escrever do pai, esperando ansiosamente as folhas saírem para devorar mais uma leitura. Por fim, a terceira fase da obra de Erico é a dos romances políticos, na qual estão incluídos "O senhor embaixador" e "O prisioneiro". "Incidente" apesar de estar contextualizada nessa terceira fase, era considerada por Erico um "romance estuário", isto é, toda sua obra e o que havia feito acabava por desaguar ali, retomando as demais fases inclusive.
Para Luis Fernando e Sérgio Rodrigues, contudo, havia muito preconceito da crítica com Erico. Parte da imprensa chamava-o "escritor menor". Para seu filho, isso pode estar em parte relacionado ao fato de seu pai não ser do eixo Rio-São Paulo. Para exemplificar a questão, Luis Fernando lembra das inúmeras técnicas narrativas inovadoras que seu pai utilizava em suas obras. Uma delas era bem semelhante às técnicas utilizadas no cinema, o que foi amplamente criticado na época. Todavia, tempos depois, esse tipo de montagem passou a ser elogiado.
Uma pergunta inevitável também foi feita para Luis Fernando durante o bate-papo: se ele sentia uma pressão maior, como uma sombra, por ter sido filho de escritor e ter acabado seguindo os trilhos do pai. O filho respondeu que não, pelo contrário. Ele só começou a escrever mais velho, depois dos 30 anos. Acredita até que, inconscientemente, o fato do pai ser escritor até acabou o inibindo-o. Apesar de Erico aprovar os textos do filho, os dois não chegavam a trocar conselhos, nem discutir sobre literatura em casa.
Coincidência ou não, sorte de nós brasileiros que podemos usufruir da obra desses dois grandes escritores, pai e filho.
A escolha do local e o nome da palestra não foram por acaso. Desde 2009, o Instituto Moreira Salles abriga o acervo literário de Erico Verissimo. Uma biblioteca foi formada para tal, contendo cerca de 1900 itens, entre livros, periódicos e manuscritos. Aos interessados, é possível ter acesso ao acervo.
O evento também foi uma forma encontrada pelo Instituto de homenagear os 40 anos do último livro do escritor, "Incidente em Antares", lançado em 1971. Planejado para o fim do ano passado, o evento acabou não acontecendo na data prevista devido à incompatibilidade de agendas e datas entre os dois principais palestrantes.
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| O jornalista Sérgio Rodrigues |
O bate-papo começou com Sérgio Rodrigues falando. Esse afirmou que foram os livros de Erico Verissimo que o fizeram optar em seguir a carreira de jornalista e escritor. Rodrigues mostrou grande interesse também pelos prefácios escritos pelo próprio Erico em suas obras, quando essas ainda eram lançadas pela editora Globo.
Na época do lançamento do livro, o Brasil vivia sob o regime militar da ditadura, que, por vezes, chegou a censurar inúmeras publicações. No entanto, a prática de censura aos livros propriamente ditos não era tão comum. Quando essa hipótese de censura aos livros foi cogitada pelo então ministro Alfredo Buzait, a classe de escritores se manifestou rapidamente. Além de Erico Verissimo, autores como Jorge Amado vieram a público criticar a medida, que acabou perdendo forças e não sendo aprovada. Aproveitando-se da polêmica, o livro foi lançado pela editora Globo de Porto Alegre com um sugestivo slogan : "Em um país totalitário, esse livro seria proibido."
O livro "Incidente em Antares" se passa em uma cidade fictícia chamada Antares, no Rio Grande do Sul, no ano de 1963, ou seja, às vésperas do regime militar. Mas poderia ser em qualquer cidade, na verdade, como bem ressalta Luis Fernando: "no fundo, Antares é um microcosmo do mundo inteiro". Fazendo um breve resumo para quem não conhece a história (e aqui já fica a recomendação para conhecer essa obra) e sem contar o final: sete pessoas morrem em Antares. Contudo, na época havia uma greve de coveiros na cidade, o que impedia que os corpos fossem devidamente enterrados. Sem saber o que fazer então, esses sete mortos resolvem ir ao coreto da praça principal para aguardar o desfecho da greve, chamando a atenção de todos os moradores da cidade. Mas o que mais impressiona, como bem destacou Sérgio Rodrigues, "é que os mortos falam coisas que muitos vivos não diriam".
O livro é dividido ainda em duas partes. A primeira se propõe a apresentar a cidade de Antares, bem como o contexto em que estava inserida: em meio às oligarquias do Rio Grande do Sul. A segunda, bem menor que a primeira, já trata do incidente em si.
Há ainda alguma semelhanças entre "Incidente em Antares" e a trilogia o "O Tempo e o Vento". Para Sérgio Rodrigues, "Antares seria uma espécie de Santa Fé (principal cidade da trilogia) mais caricatural", "é a retomada d'O Tempo e o Vento em forma de farsa". Além disso, um dos personagens citados em "Incidente", Martin Francisco, era da família Terra-Cambará, família que tem sua vida retratada na trilogia.
A inspiração para essa última obra veio a partir de uma própria greve de coveiros ocorrida no Estados Unidos, na época em que Erico morava lá, lecionando a disciplina de Literatura Brasileira na Universidade da Califórnia.
Os Estado Unidos, por sinal, geravam fascínio em Erico. Para ele, lá estava a verdadeira representação de democracia na época e a liberdade de expressão. Não à toa, chegou a morar no país duas vezes, uma convidado pelo próprio Departamento de Estado Americano. Anos depois, no entanto, ele viria a se desiludir com o país e sua política externa. Tal insatisfação pode ser observada em um de seus romances, "Senhor Embaixador", publicado em 1965.
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| Erico Verissimo e sua máquina de escrever |
A obra de Erico Verissimo costuma ser dividida em 3 partes. A primeira fase seria a dos romances urbanos, como "Clarissa" e iria até o livro "O resto é silêncio" (1943). A segunda parte seria composta pela trilogia "O Tempo e o Vento", dividida nas obras "O continente", "O retrato" e "O arquipélago". Curiosamente, tanto Erico quanto seu filho Luis Fernando têm como seu romance preferido "O continente". Luis Fernando se recorda ainda dos tempos de criança quando ficava ao lado da máquina de escrever do pai, esperando ansiosamente as folhas saírem para devorar mais uma leitura. Por fim, a terceira fase da obra de Erico é a dos romances políticos, na qual estão incluídos "O senhor embaixador" e "O prisioneiro". "Incidente" apesar de estar contextualizada nessa terceira fase, era considerada por Erico um "romance estuário", isto é, toda sua obra e o que havia feito acabava por desaguar ali, retomando as demais fases inclusive.
Para Luis Fernando e Sérgio Rodrigues, contudo, havia muito preconceito da crítica com Erico. Parte da imprensa chamava-o "escritor menor". Para seu filho, isso pode estar em parte relacionado ao fato de seu pai não ser do eixo Rio-São Paulo. Para exemplificar a questão, Luis Fernando lembra das inúmeras técnicas narrativas inovadoras que seu pai utilizava em suas obras. Uma delas era bem semelhante às técnicas utilizadas no cinema, o que foi amplamente criticado na época. Todavia, tempos depois, esse tipo de montagem passou a ser elogiado.
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| Luis Fernando Verissimo |
Coincidência ou não, sorte de nós brasileiros que podemos usufruir da obra desses dois grandes escritores, pai e filho.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Insônia
Exausto. Depois de mais um dia de muito esforço e trabalho, ele decide tentar dormir. Dormir tranquilamente não é fácil para ele. Costuma ficar horas deitado até "embalar" no sono. Isso quando consegue. Já perdeu o número de vezes em que viu o dia nascer antes de dormir. Acostumou-se até com aquela paisagem, vista da janela do seu quarto: ruas vazias e escuras.
Amanhã ele tem compromisso. Precisa repousar para estar, no mínimo, apresentável. Deitará mais cedo para ver se adianta.
Liga a TV. Precisa encontrar um programa chato, daqueles que dá sono. Para em um canal aleatório. Mas logo começa a se interessar pela programação. "Droga, não é disso que preciso. Tenho que dormir!"
Desliga a TV e pega o jornal então. A mesmice de sempre: "Governo aumenta os impostos", "Ministro nega envolvimento em esquema de corrupção". Mais uma vez, desiste facilmente.
"Já sei! Vou comer uma coisa e deitar". Faz um "lanchinho" e volta para a cama. Fecha os olhos. Vira de um lado, vira do outro. Aumenta a temperatura do ar condicionado. Nada. Nem um pouco de sono. E pensar que passou o dia cansado, sonolento...
O relógio, prefere não consultar. Sabe que está tarde e mais ninguém precisa lembrá-lo disso.
Os olhos permanecem fechados, mas o sono não vem. Contou carneirinhos, fez de tudo! Sua cabeça parece trabalhar ainda mais nesse horário. Em um turbilhão de imagens e informações, a rotina passa em sua mente: aquele e-mail que precisa mandar, a conta que chegou, a palestra do diretor da empresa e a necessidade de cortar despesas.... "Tanta coisa se passou e ainda há tanto por fazer..."
Decide, então, levantar-se e ir à escrivaninha, anotar as ideias. "Quem sabe organizando-as não fico mais tranquilo?"
Vai anotando tudo que passa na cabeça. Logo, a lista já está grande e quase não é mais possível numerar as tarefas.
Quando, enfim, se vê por satisfeito, um novo dia já nasceu. Daqui a pouco já tem que estar de pé.
"Mais um dia sem dormir direito".
Amanhã ele tem compromisso. Precisa repousar para estar, no mínimo, apresentável. Deitará mais cedo para ver se adianta.
Liga a TV. Precisa encontrar um programa chato, daqueles que dá sono. Para em um canal aleatório. Mas logo começa a se interessar pela programação. "Droga, não é disso que preciso. Tenho que dormir!"
Desliga a TV e pega o jornal então. A mesmice de sempre: "Governo aumenta os impostos", "Ministro nega envolvimento em esquema de corrupção". Mais uma vez, desiste facilmente.
"Já sei! Vou comer uma coisa e deitar". Faz um "lanchinho" e volta para a cama. Fecha os olhos. Vira de um lado, vira do outro. Aumenta a temperatura do ar condicionado. Nada. Nem um pouco de sono. E pensar que passou o dia cansado, sonolento...
O relógio, prefere não consultar. Sabe que está tarde e mais ninguém precisa lembrá-lo disso.
Os olhos permanecem fechados, mas o sono não vem. Contou carneirinhos, fez de tudo! Sua cabeça parece trabalhar ainda mais nesse horário. Em um turbilhão de imagens e informações, a rotina passa em sua mente: aquele e-mail que precisa mandar, a conta que chegou, a palestra do diretor da empresa e a necessidade de cortar despesas.... "Tanta coisa se passou e ainda há tanto por fazer..."
Decide, então, levantar-se e ir à escrivaninha, anotar as ideias. "Quem sabe organizando-as não fico mais tranquilo?"
Vai anotando tudo que passa na cabeça. Logo, a lista já está grande e quase não é mais possível numerar as tarefas.
"Mais um dia sem dormir direito".
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Amor juvenil
Na sala de aula, ele não consegue se concentrar. Não tira os olhos dela. Da lição, pouco aprende. Sua atenção não está voltada para o quadro-negro, e sim, para uma das carteiras, a alguns metros dali.
A redação passada pela professora toma outro caminho. Vira um poema, repleto de coraçõezinhos. Logo que termina, fica envergonhado. Esconde o papel, como se tivesse feito algo de errado.
Na hora do recreio, fica sentado em um banco, lanchando. Seus olhos percorrem todo o pátio, procurando-a. Como gostaria de ter coragem e conversar... Mas ela está com suas amigas, "melhor não atrapalhá-la".
Volta mais cedo para a sala, só para ter o gosto de vê-la entrando e passando por perto dele. Mas justo na hora em que ela se aproxima, um amigo o chama. Desvia a atenção e fala com o colega. "Nada não. Esquece. Já achei o que precisava". E ela passou...
Continua não prestando atenção à aula. Traça mil planos para conseguir falar com ela. Desiste da maioria. Se ela ao menos soubesse quem ele era...
Na porta da escola, fica esperando seus amigos saírem para voltarem juntos no ônibus escolar. De repente, ela sai também.
A menina volta com a mãe para a casa, que costuma buscá-la depois do trabalho. A mãe menciona o nome do garoto, desejando-lhe uma boa noite. E então a menina dá uma olhada para trás, para ver com quem estava falando.
"Ela olhou para mim! Ela olhou para mim! E agora, o que faço? Será que ela realmente olhou em minha direção ou foi coincidência?"
No dia seguinte, acorda ainda sonolento e atrasado. Não dormiu direito. Ficou a noite toda pensando nela.
Chega à sala para mais um dia de aula. Dirige-se ao seu lugar de sempre. No entanto, de longe, estranha algo sobre sua cadeira. Mais perto, percebe que trata-se de um chocolate.
"Quem será que deixou?"
A redação passada pela professora toma outro caminho. Vira um poema, repleto de coraçõezinhos. Logo que termina, fica envergonhado. Esconde o papel, como se tivesse feito algo de errado.
Na hora do recreio, fica sentado em um banco, lanchando. Seus olhos percorrem todo o pátio, procurando-a. Como gostaria de ter coragem e conversar... Mas ela está com suas amigas, "melhor não atrapalhá-la".
Volta mais cedo para a sala, só para ter o gosto de vê-la entrando e passando por perto dele. Mas justo na hora em que ela se aproxima, um amigo o chama. Desvia a atenção e fala com o colega. "Nada não. Esquece. Já achei o que precisava". E ela passou...
Continua não prestando atenção à aula. Traça mil planos para conseguir falar com ela. Desiste da maioria. Se ela ao menos soubesse quem ele era...
Na porta da escola, fica esperando seus amigos saírem para voltarem juntos no ônibus escolar. De repente, ela sai também.
A menina volta com a mãe para a casa, que costuma buscá-la depois do trabalho. A mãe menciona o nome do garoto, desejando-lhe uma boa noite. E então a menina dá uma olhada para trás, para ver com quem estava falando.
"Ela olhou para mim! Ela olhou para mim! E agora, o que faço? Será que ela realmente olhou em minha direção ou foi coincidência?"
No dia seguinte, acorda ainda sonolento e atrasado. Não dormiu direito. Ficou a noite toda pensando nela.
Chega à sala para mais um dia de aula. Dirige-se ao seu lugar de sempre. No entanto, de longe, estranha algo sobre sua cadeira. Mais perto, percebe que trata-se de um chocolate.
"Quem será que deixou?"
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